o silêncio da noite, a música de sempre
cai-me o cansaço aguçado pela ginja
todos ou quase todos dormem
uma luz de páscoa cobre a muralha
mais uma vez, o aroma do ar
e este conforto
a felicidade de poder estar com os de sempre
os que grande ou pequena me fizeram
e que, alegremente, me confirmam que deles
continuo a ser feita, por mais distante que esteja
hoje houve mais um encontro de família...
grande e cada vez maior
quem longe está, como é o meu caso,
apercebe-se das mudanças,
sobretudo as da idade
o meu tio está velho
está doente, assim parece
um homem rijo
que cresceu sozinho
que sempre nos contou as suas histórias
de vidas mal dormidas, mulheres e 1920s
inteligente,
sempre foi capaz de rir de si próprio
até das suas grandes desgraças
quase sempre
com defesas muito aguçadas
nunca culpou, sempre desculpou
excepto o próprio pai,
o aires,
que diz - sentido - o ter abandonado ainda em pequeno
e depois, ao longo da vida
aparentemente,
também nunca se culpou
nunca achou que tinha de ser desculpar,
excepto, em casos raros, perante as mulheres
homem de águas bem separadas
de um lado as mulheres
do outro os homens
coisas certas para as mulheres
outras tantas para os homens
em relação a mim,
sintonizámo-nos quase sempre apenas nos momentos da despedida
aí ele deixava-me (e deixa ainda hoje) um conselho
um conselho para uma rapariga
que, na hora da despedida, dificilmente o poderia contestar
isto porque ele sabia que provavelmente eu o contestaria sempre,
ou repeliria os seus comentários por me sentir injustiçada com eles
provavelmente, ele sentia-se também injustiçado com isso
os seus comentários foram sempre secos
e mostravam-me - assim parecia - um ponto de vista inalterável
sempre que eu tinha uma brecha, ripostava
ele dizia: sim, filha, mas olha que não é assim...
e "eu já cá ando há muito tempo"
por outro lado, era eu quem mais alimentava
aquela sua vontade de falar, de contar...
as mesmas histórias, vezes e vezes seguidas
as mesmas sequências de frases
as mesmas entoações
e, depois de uma jantarada, ficava a ouvi-lo
muitas vezes, com o meu irmão.
normalmente, ele esgotava-se a falar e ficava feliz
por lhe ser dedicado tanto espaço e tempo dos mais novos
garantidamente, no dia seguinte, dizia-me que
tinha dormido muito bem
sempre o fiz com alegria, espontaneamente,
sentindo também que recebia ouro, e muito!, por aqueles momentos
nos restantes temas
aí é que era mais complicado...
sobretudo pela preocupação dele
em dar-me os seus conselhos
esses, eu poucas vezes soube acolher
e acho que, algumas vezes, poderia ter aproveitado bem melhor
gentil,
(o seu nome)
tão intensamente velho e triste
te encontrei hoje!
czarina
domingo, abril 08, 2007
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
maruska

2 comentários:
o conforto do regresso a casa... tão bem que te compreendo!
Gostei muito de ler o texto,gostei de conhecer o tio, e tb do novo look do teu blog. Um abraço e um bom regresso à tua outra ".casa"
retrato bonito este que aqui deixas, deve sentir-se muito orgulhoso o gentil, orgulhoso por ter quem o pinte assim.
:*
Enviar um comentário