czarina

domingo, novembro 26, 2006

in mood(anças)

já houve quem falasse de metamorfose e mostrasse ter consciência dela. poucos houveram ou há.
temos noção de pequenas e grandes metamorfoses que acontecem na nossa vida... mas maioritariamente aquelas que decorrem num limite nosso já bem fronteiriço e muito próximo da influência de uma realidade social, a qual caímos na tentação de favorecer. incorporamos metamorfoses esperadas, de fora para dentro. e somos mais resistentes em fazer o movimento contrário. esse social é-nos aconchegante, parece dar-nos segurança de algum modo. no fundo, orienta-nos perante a susceptibilidade de mudança contínua. mas aí, esquecemos que há mudança constante dentro de nós e, essa, exige -nos um olhar para dentro e de dentro.
não há mais mudança fora que dentro de nós. por isso, não sei se devemos realmente dispensar a maior parte da nossa atenção na eventualidade de futuros maremotos e/ou terramotos...

agora, há quem diga que o que perdemos desde crianças é a capacidade de mudar. é até como se perdêssemos alguma parte da nossa identidade se, no fundo, ousarmos fazê-lo.

aceitar tudo o que vem de fora não é capacidade de mudar. fazer tudo o que esperam de nós também não.
resistimos-lhe exactamente porque ela nos exige um movimento de dentro para fora. resistimos-lhe porque ela nos obriga a conhecermo-nos mais e, eventualmente, a reajustar qualquer coisa cá dentro.

capacidade humana

"all music is what awakes from you when you are reminded by the instruments"

Walt Whitman

segunda-feira, novembro 20, 2006

e isto de se ser independente continua a ter muito que se dizer.
trabalha-se muito ou pouco, consoante o sol ou o dia da semana. consoante a disposição, também. porque não há um horário rígido, importa que o interior tenha estrutura. e eu estou em plena fase de adaptação à situação.
trabalho muito ou pouco? depende também do contributo que se dá... e do retorno que se recebe, ou não.
mas, para ser ser um verdadeiro "verde", é preciso alimentar o terreno porque não se tem as coisas como garantidas.
pode-se chamar a isto liberdade face aos constrangimentos ou constrangimentos face à liberdade. depende do momento. e deve ser no segundo que agora me situo.
bem, dizem das oportunidades que elas são criadas. precisa-se então de ser sujeito actuante. ok, vou procurar trabalho!

sexta-feira, novembro 10, 2006

escreve-se porque importa... registar na matéria a energia que percorre a alma. escreve-se porque não somos um, sou muitos em um e há muitos fora de mim a quem conto histórias. embora tenha aprendido mais a escutar que a falar. como sou grande, tenho muito espaço cá dentro para muitos, mas neste espaço deixo-vos apenas espreitar.
então, nesse caso, os que espreitam sem dizer... podiam pelo menos fazer o esforço de criar um blog (5 min) para me dizerem quem são, falarem de si e do que pensam do que espreitam...!

voar como o jardel sobre os centrais
saber porque dão seda os casulos
mas isso já eram coisas a mais

quarta-feira, novembro 08, 2006

a avó guilhermina. mulher de porte altivo. cara, óculos e brincos redondos, estes últimos de ouro e pequeninos. não dava um passo em falso, embora (curiosamente) tenha falecido na sequência de ter tropeçado e caído...! sofrida na vida e abandonada pelo marido. com este acontecimento deve ter achado que mais valia manter relações próximas e intensas (sempre o soube fazer apenas assim), mas de forma mais segura... então, abriu as portas de sua casa (uma casa bonita e grande na rua principal da vila) e alugava quartos a turistas. lembro-me daquela casa sempre cheia de postais de todos os lados por todo o lado. os nomes dos remetentes eram-me estranhos e apareciam noutras línguas. penso que muitas coisas eram escritas em inglês... e eu hoje pergunto-me se ela saberia ler em tal língua ou se, simplesmente, fingia que sabia. mais uma vez, o importante era mesmo o postal.
a minha recordação é a de uma casa pálida, mas serena, colorida apenas pelos postais e pela galinha grande de tecido. esta galinha era a minha galinha. andava sempre debaixo do meu braço (era quase maior que eu) e, quando me cansava, punha-a no chão e sentava-me em cima dela. era nesta posição que falava com a minha avó, que lanchava, que a via a cozer meias e a fazer malha.
outras vezes, sentava a galinha ao meu lado e ficava a olhar pela janela, para os turistas.
na casa da minha avó também havia manteiga planta, mas a da outra senhora era muito melhor... não pela manteiga mas pelo pão.
o que era mesmo mesmo bom, eram os bolinhos que a minha avó me comprava na loja do sr. ápio... mas só depois de ir com ela à missa da tarde.
nessa casa aprendi o que era um bacio, o que eram estrangeiros, o que era fingir que se sabe ler (só pelo prazer de olhar algo que não se percebe) e percebi o que significava morar numa casa sozinha (era não haver pai nem mãe, nem eu... era ser uma senhora que fazia as coisas sozinha, mas que come, dorme e arruma). também aprendi a fazer malha... mas já não sei fazer e a cozer as meias sem "cus de galinha"... mas isso sempre fiz.
a noção de tempo, se estivermos atentos,
pode ser diferente em alguns momentos da vida

aí, se mantivermos a coesão a nós mesmos,
muito podemos recolher, desfrutar, crescer

aquilo que se pensa ser "parar o tempo"
é, antes de mais e sem muito mais, vivê-lo

ouvem-se as pálpebras a bater, os sons vêm de dentro,

cheira-se a chuva a cair, isso é terra e chão e dádiva,

a carne tem cor de viva, porque faz questão de assim estar

prova-se do eu, do outro, do nós,
cria-se o que se passa
inventa-se a possibilidade
afirma-se o ser e o poder ser
aceita-se que se é amarelo, ou verde ou ambos,
afirma-se que se aceita (e que se aceita também o risco de aceitar)
nasce-se e renasce-se porque, na plenitude da paz de dentro e de fora, se abraça o mundo, a vida e o amor

quarta-feira, novembro 01, 2006

i blame you for the moonlit sky
and the dream that died
with the eagles flight
i blame you for the moonlit nights
when i wonder why
are the seas still dry?
don't blame this sleeping satellite
did we fly to the moon too soon?
did we squander the chance?
in the rush of the race
the reason we chase is lost in romance
and still we try
to justify the wastefor a taste of man's greatest adventure
have we got what it takes to advance?
did we peak too soon?
if the world is so great
then why does it scream under a blue moon?
we wonder why
the earth's sacrificed
for the price of its greatest treasure
and when we shoot for the stars
what a giant step
have we got what it takes
to carry the weight of this concept?
or pass it by
like a shot in the dark
miss the mark with a sense of adventure
(Tasmin Archer, Sleeping Satellite)
todos-os-santos e finados...
quando era pequena, mais ainda, a casa enchia-se dos assobios e cantigas do meu avô. homem alto e seco, fisionomia de inspiração árabe, nariz de judeu (mas maior que o meu). ele passava o final da manhã e quase toda a tarde em pé, junto à janela com vista para o castelo. embora tivesse uma ama e tivesse frequentado o jardim de infância, na minha memória passei muitos dias da semana com ele, só os dois, quando era ainda pequenina. Aires tinha também uns óculos muito finos e redondos que andavam guardados numa caixinha e que colocava apenas para ler o jornal (não importava a data do jornal, não eram as notícias que o interessavam, penso). lembro-me também de passear com ele nas ruas estreitas, mas um passear muito dirigido e curto, apenas até à taberna de sempre. conheci-a, à taberna, por dentro e por fora como nenhuma outra criança dessa altura. era uma privilegiada, portanto! o maior privilégio de todos era, para além de beber pirolitos e comer ovos cozidos (sem pimenta), vê-lo a jogar dominó e cartas com os amigos. devo ter passado horas a assistir. se me cansei? acho que nunca. aquilo era estratégia da mais rebuscada, de certeza, e muita "manhozice" à mistura. ainda bem que não percebia metade do significado do que diziam uns aos outros! havia sempre dois momentos, de todos, os mais triunfantes para mim: quando chegava à taberna de mão dada com ele e quando saía.
o Aires era um homem apaziguado e conflituoso ao mesmo tempo. a secura estava-lhe mesmo na alma, mas também a paz de quem faz questão de, aos setenta anos (mais ou menos), partilhar os seus hábitos e rituais com uma menina de quatro ou cinco anos.
provavelmente, nesses momentos eu vivia sensações de segurança e de omnipotência tais que, para mim, o mundo se devia rezumir a mim, à presença dele e à taberna.
talvez por excesso de ovos cozidos de vez em quando vinha uma senhora a casa da minha ama. dizia que eu estava "desmanchada" (não importa explicar o que é) e envolvia-me a barriga com umas folhas de couve embebidas em azeite. outra senhora curava-me os "cubrelos" com uma lâmina de barbear antiga, enquanto rezava. mas dessa eu gostava porque fazia pão quente às sextas-feiras e chamava-me sempre a casa dela para ir comer.
a par disto e com isto, crescia.
embora mantivesse muitas destas actividades, comecei a ter que gerir isto de outra forma quando entrei para a escola primária. também ganhei mais autonomia e foi-me oferecida a primeira pasteleira. aproveitei-a ao máximo e gostava particularmente de ir para o lavadouro das mulheres (já não havia ninguém que lá lavasse roupa, mas era sempre um sítio escondido e, por isso, entusiasmava-me). assim que chegava a casa, depois da escola, a primeira coisa que fazia era andar de bicicleta. o cheiro do ar da rua é exactamente o mesmo, hoje. contudo, falta-lhe um bocadinho de chaminé com fumo.
este cheiro misturava-se com o cheiro da minha roupa, normalmente a cedro podado, uma vez que, na escola, passava os intervalos a trepar-lhes e a fingir que eram naves espaciais (cheguei mesmo a acreditar nessa possibilidade e os meus colegas também, desconfio!). a partir de certa altura (mais ou menos 3ª classe) também jogava ao "bate o pé"... claro.
o Aires sempre acompanhou tudo isto e, embora eu não notasse muito a diferença, ele ía envelhecendo. isso trouxe-me também algumas vantagens, claro! por exemplo, aprendi a cortar fatias de pão e de queijo da ilha para lhe dar ao lanche, aprendi o que é o Atarax, Xanax, Renitec, etc..., aprendi proporções (por exemplo, um quarto ou metade de comprimido), aprendi a não me agoniar com escarros e fungadelas (que ele tanto fazia a partir de certa altura!), aprendi o que é uma algaliação, um clister, aprendi que dói ver sofrer porque se sofre mas que há momentos de felicidade até ao último suspiro... aprendi tudo isto cedo e bem!
acompanhei-o sempre, até a um fim que julgamos existir. dele guardo tudo isto, muito mais, o que acabei de escrever (e, portanto, este momento também)... e a música.
e, olhando agora para a janela que me deixa ver as mesmas muralhas, percebo que também com ele aprendi que quando se vai se fica e que quando se vai se leva. não se perde nada. o que acontece é que nos propomos ou nos sentimos obrigados a ver as coisas sob outros pontos de vista que não os que tínhamos até ao momento.
quando me queres beijar, beija
quando tropeçares num qualquer suspiro meu, descansa
quando olhares e não me vires, mantém o que sou em ti
quando duvidares dessa presença, recorda e sonha
quando quiseres sorrir-me, sorri
quando fores feliz, também comigo, fazes de mim tua mulher
quando me abraças, cresço
quando me beijas, quero-te mais
quando me chamas, vou
quando vens, estou
quando és tu, sou mais eu (e todos os lados que tenho)
quando? aqui e agora...
porque quando percebi o que pode ser amar, trouxe-te comigo e embalei-te no mar