czarina

quarta-feira, novembro 01, 2006

todos-os-santos e finados...
quando era pequena, mais ainda, a casa enchia-se dos assobios e cantigas do meu avô. homem alto e seco, fisionomia de inspiração árabe, nariz de judeu (mas maior que o meu). ele passava o final da manhã e quase toda a tarde em pé, junto à janela com vista para o castelo. embora tivesse uma ama e tivesse frequentado o jardim de infância, na minha memória passei muitos dias da semana com ele, só os dois, quando era ainda pequenina. Aires tinha também uns óculos muito finos e redondos que andavam guardados numa caixinha e que colocava apenas para ler o jornal (não importava a data do jornal, não eram as notícias que o interessavam, penso). lembro-me também de passear com ele nas ruas estreitas, mas um passear muito dirigido e curto, apenas até à taberna de sempre. conheci-a, à taberna, por dentro e por fora como nenhuma outra criança dessa altura. era uma privilegiada, portanto! o maior privilégio de todos era, para além de beber pirolitos e comer ovos cozidos (sem pimenta), vê-lo a jogar dominó e cartas com os amigos. devo ter passado horas a assistir. se me cansei? acho que nunca. aquilo era estratégia da mais rebuscada, de certeza, e muita "manhozice" à mistura. ainda bem que não percebia metade do significado do que diziam uns aos outros! havia sempre dois momentos, de todos, os mais triunfantes para mim: quando chegava à taberna de mão dada com ele e quando saía.
o Aires era um homem apaziguado e conflituoso ao mesmo tempo. a secura estava-lhe mesmo na alma, mas também a paz de quem faz questão de, aos setenta anos (mais ou menos), partilhar os seus hábitos e rituais com uma menina de quatro ou cinco anos.
provavelmente, nesses momentos eu vivia sensações de segurança e de omnipotência tais que, para mim, o mundo se devia rezumir a mim, à presença dele e à taberna.
talvez por excesso de ovos cozidos de vez em quando vinha uma senhora a casa da minha ama. dizia que eu estava "desmanchada" (não importa explicar o que é) e envolvia-me a barriga com umas folhas de couve embebidas em azeite. outra senhora curava-me os "cubrelos" com uma lâmina de barbear antiga, enquanto rezava. mas dessa eu gostava porque fazia pão quente às sextas-feiras e chamava-me sempre a casa dela para ir comer.
a par disto e com isto, crescia.
embora mantivesse muitas destas actividades, comecei a ter que gerir isto de outra forma quando entrei para a escola primária. também ganhei mais autonomia e foi-me oferecida a primeira pasteleira. aproveitei-a ao máximo e gostava particularmente de ir para o lavadouro das mulheres (já não havia ninguém que lá lavasse roupa, mas era sempre um sítio escondido e, por isso, entusiasmava-me). assim que chegava a casa, depois da escola, a primeira coisa que fazia era andar de bicicleta. o cheiro do ar da rua é exactamente o mesmo, hoje. contudo, falta-lhe um bocadinho de chaminé com fumo.
este cheiro misturava-se com o cheiro da minha roupa, normalmente a cedro podado, uma vez que, na escola, passava os intervalos a trepar-lhes e a fingir que eram naves espaciais (cheguei mesmo a acreditar nessa possibilidade e os meus colegas também, desconfio!). a partir de certa altura (mais ou menos 3ª classe) também jogava ao "bate o pé"... claro.
o Aires sempre acompanhou tudo isto e, embora eu não notasse muito a diferença, ele ía envelhecendo. isso trouxe-me também algumas vantagens, claro! por exemplo, aprendi a cortar fatias de pão e de queijo da ilha para lhe dar ao lanche, aprendi o que é o Atarax, Xanax, Renitec, etc..., aprendi proporções (por exemplo, um quarto ou metade de comprimido), aprendi a não me agoniar com escarros e fungadelas (que ele tanto fazia a partir de certa altura!), aprendi o que é uma algaliação, um clister, aprendi que dói ver sofrer porque se sofre mas que há momentos de felicidade até ao último suspiro... aprendi tudo isto cedo e bem!
acompanhei-o sempre, até a um fim que julgamos existir. dele guardo tudo isto, muito mais, o que acabei de escrever (e, portanto, este momento também)... e a música.
e, olhando agora para a janela que me deixa ver as mesmas muralhas, percebo que também com ele aprendi que quando se vai se fica e que quando se vai se leva. não se perde nada. o que acontece é que nos propomos ou nos sentimos obrigados a ver as coisas sob outros pontos de vista que não os que tínhamos até ao momento.

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