Comecei a ler um livro oferecido pela Bárbara. "O Coleccionador de Sons". Li a primeira página e, a meio da segunda, parei... pensei - na sequência de ter lido uma passagem que agora não me lembro qual, mas importa o que disse... - se ficava ali, se iria escrever. Pensei no fumo, no meu livro de escrita, levantei-me... não para ir directa ao livro, mas directa ao frigorífico. Quando lá cheguei apercebi-me que, no caminho, em jeito de ápice, tinha lambido os dedos. Lembrei-me depois que é um hábito desde pequena. Quando sinto os dedos secos (frequentemente, assim como molhados) passo os dedos pela língua (que se põe bem fora da boca). Sei que é um hábito meu desde há muito mas continuando a ser quase inconsciente não sei se já foi visto por alguém.
Decididamente, o único sítio público em que acho que me viram a fazê-lo foi no supermercado, mas aí é diferente. Por mais que tente, entre a azáfama de ter que ser rápida porque há mais pessoas na fila e o querer mesmo ir embora, não domino a técnica do abrir os sacos sem a ajuda de um bocadinho de saliva!
Mas, dizia eu, fui em direcção ao frigorífico e tirei de lá a caixa de "depois das oito" que trouxe, de volta à sala, para a mesinha. Pousei a caixa e, parecendo ter já os passos todos ensaiados, fui buscar o livrinho da escrita. Não estava no sítio do costume, estava em cima da cómoda do quarto, ao lado do "para ti" da Carolina. Voltei para a sala. Pelo caminho senti-o no cheiro e no respirar.
Sentei-me de novo no sofá e escrevi isto com a caneta do Euro e da conversão de escudos em euros (velha, não?).
[...]
Entretanto, fechei o caderno e lá longe vi o pensamento do hoje estás cansada e podes descansar, dormir, pensamento que, na sua efemeridade, se suavizou.
Abri o livro novamente. Li nele o que de primeiro leio num livro quando o conheço pela primeira vez: a parte de fora e a parte de dentro da capa. De todas as palavras ficou a palavra (que tive entretanto de confirmar) parábola.
Isso impeliu-me a regressar aqui para acrescentar mais este bocadinho.
Agora vou deitar-me no sofá, possivelmente dormir... aquele pensamento já passou a sensação.
[excerto de o caderno da casa do arco, MARuska]

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